segunda-feira, 30 de maio de 2016

Transmutados- O Desconhecido de Vanessa Tourinho Capítulo II parte 1

Continuação dos Capítulos disponibilizados pela nossa amada 
Vanessa Tourinho



II- SEGREDOS

“Nada nos deixa tão solitários quanto nossos segredos.”
[Paul Tournier — Secrets]
A primeira vez que tudo aconteceu foi bem difícil. Ao saber que poderia ler a mente de amigos, fui tomada por uma compulsão. Ficava horas acordada, vasculhando cada lembrança, cada pensamento, cada visão que as mentes me davam. Muitas vezes me decepcionei com pessoas próximas em outras, me surpreendi.
Confesso que a mente humana é algo impressionante, e que a cada flash de memória eu me viciava. Como uma usuária de drogas, aquilo me satisfazia, me bastava. Era mais importante que qualquer coisa. Era mais interessante que assistir a qualquer série de TV, ler qualquer livro ou assistir a qualquer filme. Era mais essencial do que me alimentar ou me hidratar. Entrar nas mentes é conhecer o verdadeiro caráter de uma pessoa, é conhecer sua essência, mas, como um jogo, uma hora, tudo isso me cansou.
Depois de reabilitada do meu vício, passei a ver que roubar tais pensamentos ou descobrir segredos alheios era errado, e procurei ser mais cautelosa, afinal de contas não gostaria de ter alguém vasculhando meus segredos e buscando maneira de se divertir com eles. Como não sabia dominar meus poderes, tentei ignorar tudo que me vinha à cabeça.
Não foi fácil.
Imagine uma sala de aula cheia de adolescentes, e sem a supervisão de um professor. Era assim que me sentia.
Minha mente era uma sala de aula, com um seleto e barulhento grupo de adolescentes. Meu próprio controle era o supervisor deles.
Nas primeiras semanas meus adolescentes ficaram livres e à vontade entre eles, fazendo uma bagunça em minha mente. Com o tempo e com a prática, consegui apagar cada voz e criar um bloqueio para cada pensamento — algo nada fácil, levando em conta o número de pessoas com quem convivia, mas me sentia aliviada, e isso bastava.
A parte de sair de meu corpo foi a mais difícil, me pegou de surpresa.
Minha maior dificuldade foi entender como me desprender do meu corpo. A resposta não pareceu tão complicada depois que eu descobri, mas antes de conseguir entender, minhas tentativas foram semelhantes às sensações boas de uma meditação. Sentia-me como o Homem-Aranha, tentando descobrir como ejetar suas teias. Depois de algumas tentativas frustradas aprendi que a questão era o autocontrole, era apenas livrar meu cérebro de pensamentos e sentir-me livre, depois disso, tudo foi questão de prática.
Meu primeiro “voo” foi fácil, afinal eu não poderia me machucar ou cair. Eu era apenas um fluxo de energia.
Atrás da porta do meu quarto havia um pôster com a imagem da praia de Copacabana, que eu tinha comprado durante minha primeira e única viagem ao Rio de Janeiro, quando participei de um congresso para estudantes de letras. E foi para Copacabana que decidi ir. Foi a experiência mais incrível de minha existência. Atravessar cada obstáculo e voar quase que na velocidade da luz, sem medo e sem culpa, foi conhecer o verdadeiro significado da liberdade.
Depois de entender e aprender a lidar com minhas mudanças, decidi que precisava contar meu segredo a alguém.
Nunca fui boa em guardar meus segredos, sempre me senti pequena demais para guardar tais pensamentos, sempre senti a necessidade de compartilhá-los e foi justamente por isso que precisei contar a alguém tudo que acontecera comigo.
Mas precisava me preparar para revelar esse segredo e também precisava escolher a pessoa certa, ou, o máximo que eu conseguiria seria ser internada em um hospital psiquiátrico.
Escolhi minha amiga Fernanda como confidente. Ela era a pessoa mais prudente que eu conhecia e a mais sincera — pude perceber isso por seus pensamentos. É do tipo da pessoa que diz o que pensa, mas sempre com muita educação e calma, ainda que às vezes se mostre um pouco impulsiva. Então pela noite, depois que eu saí da universidade fui a casa dela. E quase saí voando — quando se tem a verdadeira noção de velocidade, correr já não é o suficiente.
— Fernandaaa! — gritei apertando a campainha, como se apertá-la já não bastasse.
Para minha sorte a própria Fernanda veio me atender, isso deveria ser um bom sinal, não é?
— Meu Deus, Luisa! Por que a pressa? Você está fugindo da polícia? — disse ela brincando, quase gargalhando enquanto ajeitava seus cabelos tingidos de castanho, atrás das orelhas.
— Oi, Nanda! Desculpe, mas é que preciso falar com você. Sua mãe está em casa?
— Oi, Luisa! — gritou a mãe de Fernanda, Dona Sônia, da cozinha. — Veio jantar conosco?
— Não, dona Sônia, obrigada! — gritei em resposta, enquanto Fernanda me puxava para dentro de sua casa.
— Não quer nem um copo de suco? — Dona Sônia, insistiu. — É de maracujá, sei que você gosta.
— Não, mãe, a Luisa não quer nada! — Fernanda respondeu por mim — Ela veio conversar comigo.
— Claro, claro. Vocês e seus segredinhos!
Fernanda sorriu para mim, nitidamente preocupada. Segurou minha mão e me levou até seu quarto. No caminho seus pensamentos invadiram minha mente, de forma descontrolada. “O que será que você aprontou Luisa?”, ela pensou. “Por favor, não me venha dizer que está gravida, depois de tudo que conversamos!”
Sem me dar conta do que estava fazendo, puxei minha mão da dela e a olhei indignada.
— Como você pode pensar isso de mim, Fernanda? — eu disse — É claro que não estou grávida! Além do mais, quem seria o pai?
— Ué? Como você...? — ela me olhou assustada.
— Esqueça. — eu disse mais controlada, só então me dando conta do que tinha feito. — Vamos para seu quarto.
Fernanda seguiu em direção ao quarto, ainda assustada. Sentou-se em sua cama e me esperou calada. Como eu estava muito ansiosa e preocupada com sua reação, fiquei andando de um lado para o outro esperando a coragem chegar. Passaram-se alguns segundos, então ela decidiu falar por mim.
— Luisa, você está me preocupando. O que aconteceu? — Fernanda perguntou, deixando um quê de apreensão escapar no tom de sua voz. Tive vontade de escutá-la mentalmente, mas outros pensamentos além dos meus me deixariam nervosa, e bloqueei as vozes de minha mente, com mais força, assim que notei minha resistência se enfraquecendo.
Foi quando me dei conta do que estava fazendo. Quem acreditaria em mim? Contar a alguém que você consegue escutar os pensamentos alheios não é algo sensato, é loucura.
Arfei tentando me livrar do peso desse segredo.
— Luisa! — Fernanda gritou. — Você está bem? É sério, você parece que vai desmaiar.
Usei meu melhor sorriso, ou melhor, uma tentativa do que seria esse sorriso, e, de maneira falsamente descontraída, ri.
— Estou bem, sim. Desculpe lhe assustar. Só estava preocupada com minhas notas.
Fernanda concordou compreensivamente.
— Elas caíram muito, Luisa. Você sempre tirou boas notas, o que aconteceu? Você quer conversar sobre isso?
Coloquei minha bolsa na mesa do computador de Fernanda e fui me sentar na cama.
— Acho que ando estressada com tanto trabalho. — menti, abraçando o Vesgo, um sapinho de pelúcia que tinha olhos tortos. Fernanda o ganhara do namorado no Natal.
— Você não precisa se estressar tanto. Seu trabalho com o professor Adriano é algo que você precisa rever. É um trabalho desnecessário e sem remuneração. Aliás, ficar lhe usando como assistente é quase um trabalho escravo.
— Eu gosto de trabalhar com ele. Ajudá-lo a fazer os planos de aula para a turma de calouros da manhã, fiscalizar as avaliações e ir a biblioteca tirar cópia dos livros que ele usa... Não é nada de mais.
— É um trabalho desnecessário, Lu! Você nem quer ser professora! Pensei que você quisesse trabalhar como revisora e tradutora.
— E quero, mas preciso me sustentar, Fernanda. Trabalhar como monitora, na universidade, vai dar um dinheiro bom, e vai me manter até que eu consiga uma vaga naquela editora no Rio de Janeiro.
— Aquela editora onde não é nada fácil entrar? Você não vai desistir desse sonho nunca, pelo visto! Certo, certo, mas não foi para falar sobre isso que você veio até aqui, foi?
Olhei Fernanda com atenção. Ela me conhecia muito bem, e, às vezes, eu me esquecia disso.
— Errr... Só vim conversar com você. Não lhe vi hoje, pela manhã, na universidade. Passei na sala da sua turma de Biologia, mas o Alexandre me disse que você não pôde ir.
 — Na verdade eu não quis. Estava irritada com o Alex. Você viu a nova aluna da turma? Ela e Alex ficaram amigos. Não é que eu não confie no meu namorado, sabe? É que não confio nela! Naquela oxigenada! Acredita que ela teve a cara-de-pau de me dizer que achava o Alexandre um cara gostoso!
— Alexandre não se sente atraído por ela. Ele te ama, Fê.
— Como você sabe? Ele te disse alguma coisa? Você viu algo?
— Eu só... só sei. — desconversei. — Sou boa em analisar as pessoas. O Alexandre só vê a garota como uma amiga mesmo. Ele estava até pensando em apresentar o Roger a ela.
— Sério? Ele está pensando isso, mesmo?
— Bom, nã... não sei se ele está pensando isso, né? Não sou telepata! — ri de maneira nervosa — Mas o vi conversando com o Roger sobre isso.
Bocejei fingindo sono.
— O.K., acho que vou indo. Estou tão cansada, e amanhã preciso entregar um trabalho de literatura para um cara bonitão do 6º semestre.
— Quer uma carona? — Fernanda ofereceu — Vi que você está sem sua lata-velha, quer dizer, sem seu carro!
— Muito engraçado! Minha lata-velha é bem útil quando você quer encontrar com o Alex no motel, né?
— Sssshhh, fala mais baixo! — Fernanda pediu quase tapando minha boca com as próprias mãos. — Certo, você venceu! Ele é velho, mas é útil. Mas então, vai querer uma carona?
— Na verdade não. Prefiro ir a pé.
— Te levo até a porta.
Estava na sala quando Dona Sônia apareceu com uma sacola na mão.
Com cabelos cobertos por um lenço, usando um vestido floral e tamancos de salto, Dona Sônia era uma dona de casa sempre muito vaidosa. Usava salto até quando fazia faxina.
— Querida, apareci na hora certa! — ela disse sorrindo para mim — Coloquei em uma vasilha um pedaço de empadão de carne, e na outra tem um pedaço generoso de mousse de limão. Tome! — ela concluiu me entregando a sacola.
— Mãe! — Fernanda ralhou, envergonhada, pensando que eu me ofendia toda vez que a mãe dela separava comida para eu levar. — Desculpa, Luisa, já pedi pra ela parar com isso.
— Tudo bem, Fê. Obrigada, Dona Sônia! Não precisava, mas fico muito agradecida. Sei que está tudo gostoso.
— Modéstia à parte, está mesmo! E pare de bobagens, Fernanda! Só me preocupo com a garota!
— Não, mãe, você a trata como uma morta-de-fome!
Fernanda nunca gostou da maneira como a mãe dela me tratava, e sempre me “defendia”, ainda que não fosse necessário. Dona Sônia, da maneira dela, sentia a necessidade de suprir a falta de uma mãe, e com isso me paparicava como podia.
— Fernanda! Não seja grosseira! — Dona Sônia me puxou para um abraço e me manteve ali enquanto falava. — Não ligue para sua amiga, querida. Eu só quero que você fique bem, porque você merece ser feliz, minha filha. E você será!
Senti meus olhos encherem de lágrimas, mas me contive e pisquei várias vezes para me livrar do excesso de umidade nos olhos.
Ninguém nunca me dissera que um dia eu seria feliz. Eu mesma nunca me imaginara de tal forma. O que eu desejava para mim se resumia em conseguir me manter financeiramente. Sonhar era uma regalia que eu nunca me atrevi a usar. A realidade sempre manteve meus pés presos ao chão. Emocionei-me com aquele desejo tão inocente e puro, mas logo me afastei do abraço.
— Obrigada, Dona Sônia, a senhora é como uma mãe.
Ela sorriu para mim e lançou um olhar repreensivo para a filha.
— Está ficando tarde. Preciso ir. Tchau, Fê. Até logo, Dona Sônia. E obrigada novamente.

— Tchau. — Elas me disseram em uníssono, enquanto eu saía com pressa, antes que notassem meus olhos úmidos.

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