quinta-feira, 26 de maio de 2016

Alch'Antra - A Cidade Assombrada Pela Luz de F.R.Andrade - Capítulo II

Continuação da história de ...


Capítulo II
Ton’ estava adormecido quando acabara de receber uma mensagem em seu Incsog, o bipe alto do aparelho o fez saltar de susto, deixando o garoto desnorteado até perceber que ainda estava no vagão. Puxou do bolso seu dispositivo e ficou com ar de dúvida após ler o recado.
— Como assim? Não posso acreditar numa coisa dessas — Interrogou Ton’ coçando a cabeça lisa e cinza, e com um breve sorriso de canto de boca que se camuflava de bocejo.
A mensagem não tinha remetente, não tinha localização de envio e muito menos o horário, foi isso que o espantou, se levantou do seu acento, olhou em volta.
— Ora ora, acho que alguém não vai trabalhar hoje, hein?! — Falou Ton’ abrindo os braços no meio do vagão, porém ninguém lhe ouvia, olhou para todos os meruvianos que estavam ali cochilando e com seus fones sensoriais.
Mas um lampejo de consciência o fez verificar a mensagem mais uma vez e achou realmente estranho não ter remetente, caso fosse o seu chefe, a mensagem iria vir assinada com o famoso “Att, Cort’Os”. Lembrou da onda de ataques que tinham acontecido a poucos dias contra a empresa que fabrica os Incsogs; um grupo de adolescentes tinha invadido um banco de dados onde tiveram o identificador pessoal de milhares de dispositivos por toda Baldátena.
— Será? Não... não pode ser, quem costumava estar invadindo os Incsogs era eu, não posso ser a vítima — Falou baixinho como se alguém estivesse lhe torturando com aquilo.
Naquele dia 38c-90o (dia 38 do mês Centrivus, órbita 9990) Alch’Antra estava um pouco nublada, com um leve cheiro de mistura de comida em que alguns meruvianos vendiam na entrada do terminal de desembarque em que Ton’ iria descer. Esse cheiro foi o suficiente para ele despertar do seu pequeno cochilo que em todas as manhãs, lhe revigorava mais do que as suas 4horas de sono diárias; meruvianos dormiam pouco e produziam muito durante o dia, passavam quase 22 horas no trabalho que eram dividias em 4 pausas durante a jornada. As empresas de Alch’Antra se preocupavam demais com o estado físico de seus funcionário, e quase como uma lei interna, todos os locais de trabalho deveriam ter no mínimo um dormitório coletivo.
            O planeta Baldátena tinha uma rotação diária de 32horas, então não possuía nenhuma reclamação quanto a carga horaria de trabalho, visto que eles recebiam os créditos mais que proporcionais aos que trabalhavam todo esse tempo, e se você trabalhasse em algum ramo ligado a ciência e tecnologia recebia o seu famigerado passe F.G que lhe concedia inúmeras regalias todas bancadas pela Vahlla, governo central do planeta.
Ton’ esticou todos seus membros e estralou seus 4 dedos de cada mão enquanto saía sorridente para mais um dia de trabalho, não era o emprego dos sonhos dele, porém lhe agradava muito pelo fato de estar diretamente ligado com a sua faculdade. Saiu então do grande peixe que o trazia todos os dias para a LGNS, e como era de costume, todas as manhãs ele parava em frente ao pequeno quiosque da velha Nor’Lin.
— Bom dia, gostaria de um gotch quente e um pedaço desse negócio verde que você tem aí, não sei muito bem o que é mas na fome... — Disse Ton’ com uma cara de nojo, olhando para o vidro que exibia as comidas.
— São 45 créditos no total, pequeno Ton’Hill — Nor’Lin a senhora meruviana que vendia os alimentos pela manhã, disse com uma voz rouca de que não tomava um gole de agua há 200 anos.
— Tudo isso? — Mesmo sabendo o preço, Ton’ sempre brincava — Tem troco para fiado?
— Não, Ton’. — Disse Nor’ com um pequeno sorriso no canto da boca — Todo dia a mesma piada? Você não cansa mesmo, hein?
Ton’ passou seu pulso na máquina de registro de créditos onde foram debitados instantaneamente do seu saldo.
Meruvianos não usavam dinheiro ou algum objeto em que servisse para comprar ou vender. Ao nascer era implantado um pequeno chip de identificação no pulso esquerdo de todos os meruvianos, isso servia para um melhor controle de natalidade e várias outras utilidades mais cotidianas, desde identidade até a preferencias de comidas em restaurantes; esses dados poderiam ser acessados e modificados caso você tivesse uma senha pessoal, e o tipo sanguíneo daquele determinado meruviano. Esse chip, era algo inviolável, intransferível, e caso fosse retirado, era imediatamente avisado a Vahla.
Ao sair do quiosque, via-se a grande via principal que dava acesso a área industrial da cidade de Alch’Antra, uma grande extensão de prédios e fábricas metálicas flutuantes, seus elevadores que partiam da entrada dos edifícios comerciais até o setor de preferência. Para entrar nessa parte da cidade era preciso se identificar nos guardas em hologramas que ficavam logo após a saída dos quiosques, eram popularmente conhecidos como “Xarás” apesar de possuírem inteligente artificial, eles tinham mais senso de humor do que metade da população daquela cidade. Ton’ sempre quis que um dos dois fosse um meruviano de verdade, pois achava que seriam uma boa companhia para uma noitada na cidade, que se resumia basicamente em paquerar alguma meruviana e beber muitos Tarks (como se fosse a cerveja dos meruvianos). Ton’ terminou de tomar o seu gotch, limpou a boca na manga da sua camisa, soltou um pequeno arroto e caminhou em direção aos hologramas.
— E aí, rapazes? Bom dia, tenho uma pergunta pra vocês. — Ton’ conhecia as pessoas que tinham programado os Xarás e também sabia dos algoritmos que travava os dois seres ali parados com cara de muitos amigos.
— Me desculpe senhor, você ainda não passou seu pulso no identificador, não posso ser tão íntimo a responder perguntas de um estranho. — Disse o holograma azul com uma rosto meruviano sério.


— Ohh! Verdade, me desculpe.
Ton’ passou o pulso no leitor que estava numa haste metálica.
— Bom dia, senhor Ton’Hill, funcionário da empresa LGNS, me desculpe pelo pequeno incomodo em lhe indagar sobre o pulso, mas são normas da cidade. Não é fácil ser um holograma pai de 4 holograminhas — Disse xará azul com um semblante bem mais promissor.
— Lhe entendo, pobre Xá. Mas não pense que irei deixar de lhe fazer a pergunta por pena da sua família, vamos me responda.
Ton’ com um olhar demoníaco olhava para os dois hologramas ali parados com caras de dúvida.
— Irei atualizar a versão de vocês para uma melhor caso consigam me responder, qual a metade de 2 mais dois — Ton’ sem pena fez a pergunta, sabendo que o algoritmo deles seria impossível de achar a resposta correta.
Os dois hologramas deram uma leve piscada, emitiram sons aleatórios e logo apagaram como se houvesse acontecido um curto no sinal de emissão dos dois. Logo após o incidente uma pequena fila de meruvianos se formou na entrada do setor comercial aguardando os Xarás voltarem a funcionar e assim liberando a entrada de todos.
A faculdade governamental de Alch’Antra é um conjunto de prédios divididos simetricamente ao longo de seus 32 campus, com uma variedade enorme de cursos, passando por Engenharia bélica, Desenvolvimento e infra-estruturação informacional até Ciência aprofundada em AlphaVirginiti onde Laor’Ner lecionava a mais de 10 órbitas. Naquela manhã o pai de Kal’Gana estava inquieto de uma forma em que ela nunca tinha visto antes. A moça após hesitar algumas vezes, respirou fundo antes de perguntar ao pai enquanto eles caminhavam no correndo principal que dava para a sala de aula.
— Pensava que o senhor já estaria acostumado com os primeiros dias.
— Por que acha isso? Os primeiros dias são sempre os piores e os mais torturante, hoje por exemplo já vou ter certeza dos alunos que irão concluir o curso e os que não vão. A parte ruim de tudo isso é ter que ensinar os que provavelmente irão desistir na próxima órbita, sinto que eles sugam algo de mim sem me dar nada em troca. — Laor’ se sentiu aliviado depois de ter colocado isso pra fora, parecia que um fantasma tinha sido exorcizado de seu corpo.
Mas com um breve sorriso e um beijo na testa de Kal’ ele se entusiasmou.
— Mas é isso que eu faço, não é?! Eu escolhi ensinar esses meruvianos durante toda a minha vida, sempre irão ter momentos assim e conto com a sua ajuda hoje, pois não vai ser nem um pouco fácil colocar um AlphaVirginit polarizado ao semicondutor iônico na cabeça de alguns. — deixando escapar uma leve gargalhada.

— Essa é a parte fácil, a difícil é ter que lidar com seus alunos pedindo o ID do meu Incsog a todo momento. — Disse Kal’ mostrando a língua e levantando os olhos com sinal de tédio.
A sala do curso de Ciência aprofundada em AlphaVirginit lembrava um anfiteatro grego, onde Laor’ ficava em um semicírculo na altura do chão, e os acentos dos alunos eram dispostos ao redor desse semicírculo, as fileiras avançavam na vertical e para traz, sendo assim, cada aluno iria ver perfeitamente o que estava escrito na tela de 6 metros de altura que flutuava ali; repetindo cada rascunho, anotação e imagem que Laor’ passava em seu Incsog. Kal’ por sua vez, ficava transitando entre as fileiras ajudando os calouros com dúvidas pertinentes, mas sempre tinha um meruviano mais esperto querendo tirar proveito dessa situação.
— Monitora! Monitora. — Chamou um rapaz ao fundo que já estava com um sorriso no rosto como se tivesse acabado de contar algo para seus amigos.
— Pois não. — Respondeu Kal’ com uma seriedade impecável.
— Não sei o que é mais difícil, entender o que esse velho fala aí na frente, ou parar de olhar pra você. — Disse o jovem arqueando um de seus olhos e com um riso cafajeste em sua boca.
— Realmente é algo difícil de responder, mas vendo que você não consegue prestar atenção na aula mais básica do curso, ou não tem capacidade para isso, eu consigo prever quando você deixará de ser sustentado pelos seus pais. — O semblante de Kal’ não mudou nem um pouco desde que o rapaz a tinha chamado.
Os amigos do jovem meruviano não seguraram as gargalhadas que foram suficiente para toda a classe notar algo de errado na aula, inclusive Laor’Ner.
— Algum problema aí em cima Kal’? Os rapazes estão com dificuldade para entender?
— Acredito que sim, ou ele não consegue compreender o assunto pelo simples fato de você ser velho. — Kal’ deu de ombros. — Foram as palavras dele.
— Quanto a idade realmente não vou poder lhe ajudar meu jovem, mas venha mais para frente, tem acentos aqui, assim você poderá entender com mais facilidade.
Todos viram o jovem meruviano descendo as escadas, com um sorriso sem jeito, tentando descobrir para onde tinha ido parar sua dignidade.
Laor’Ner após se apresentar para a classe e mostrar o trabalho que a sua filha iria fazer naqueles dias, parecia cada vez mais excitado com a aula, pois aquele curso fora organizado todo sobre a supervisão dele, era a pessoa ideal para lecionar a matéria. O professor Laor’ vinha trabalhando em uma tese sobre AlphasVirginitis que já tinha lhe consumido 28 órbitas de vida, a longevidade dessa teoria se dava pela falta de experimentos em meruvianos, mas estava confiante com o projeto que a sua filha estava desenvolvendo para mostrar a equipe do VinciTus, assim concluindo de vez a sua teoria. Esperou as perguntas iniciais que eram sempre bem vindas, se acomodou na cadeira como se fosse contar uma história de terror para crianças medrosas. Respirou fundo antes de começar:
— Muitos aqui já ouviram falar sobre os famosos AlphaVirginits, mas de uma maneira bem superficial, irei fazer um breve resumo de tudo que sabemos sobre eles, e grande parte dessa descoberta teve a minha ajuda. — O professor não conseguia esconder a satisfação de estar falando aquilo, segurando o sorriso orgulhoso que estava quase escapando.                                                
A sala toda estava paralisada, prestando atenção no que aquele meruviano de meia idade estava a falar, até os mais bagunceiros que se encontravam no final da sala estavam interessados naquela história.    
— Olhe para seu braço, toque em você, sinta a sua pele — Laor’ apertava seu braço deixando marcas azuladas. — Existem AlphaVirginitis em você, em cada átomo que constitui seu corpo, os Av compõe 99,9% de tudo que nós conseguimos e não conseguimos enxergar. Eles são partículas elementares que se encontram dentro de todos os átomos que compõem todo o nosso universo, o processo de descobrimento deles podemos dizer que foi algo bem rudimentar, bem bruto. Precisamos chocar dois núcleos atômicos um contra o outro para literalmente se despedaçarem em fragmentos menores; no momento do impacto podemos analisar quais outras partículas existem dentro deste núcleo. Após órbitas com esse tipo de experimento, descobrimos que dentro de um núcleo atômico existiam mais 64 partículas menores que não poderiam ser quebradas com o mesmo processo violento, essas partículas são chamadas de partículas elementares. Depois de vários meses gastos com analises desses experimentos, eu e minha equipe teórica, deduzimos que de acordo com a matemática fundamentando nossa tese, faltava descobrir mais uma partícula elementar, com isso, melhoramos nossos equipamentos que poderiam chocar esses núcleos com forças jamais vistas. Então naquele belo dia 25D-84º após um grande período sem novas descobertas, o laboratório de choque de partículas revelou ao público a descoberta da última partícula elementar prevista, onde foi nomeada AlphaVirginit. Ao longo das órbitas desde a descoberta, foram especuladas várias outras subteorias no que os Av poderiam ser uteis ao nosso dia-a-dia, então a VinciTus, órgão que lida com experimentos utilizando essas partículas, começou a abrir espaços para cientistas sem patrocínio; eles iriam analisar os projetos e arcar com os custos, e por isso minha filha Kal’Gana que está sendo monitora hoje aqui, acumulando horas de campo para o processo de seleção, que tem como requisito essa monitoria em cursos que abordam algo mais aprofundado sobre os A.V.
Kal’ sem nenhuma mudança de expressão, olhou ao redor para todos aqueles alunos com ar de superioridade.
— Olhe para todos eles, jovens, velhos, aprendendo algo que eu já sei desde criança — Pensou Kal’.
Aquele anfiteatro tinha mudado de aspecto, olhos meruvianos atentos ao aquele ser que falava a mais de 90 minutos, nenhum gracejo vinha do fundo da sala, nenhuma reação em cadeia de bocejos, apenas a voz de Laor’ que reverberava por toda a sala. Ele tinha conseguido algo que todos os professores sonham, a atenção de toda turma.


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